Na sombra de uma solução há um “bote” mortal.

Digo dos subempregos, mas para dizer a verdade falo do mais cruel de todos, o telemarketing. Alguns afirmam que essa profissão não é, nem mesmo, um subemprego.
Resolvi assumir um prisma sobre o assunto depois de ver um “gestor” de CallCenter (lugar onde se amontoam os atendentes de telemarketing), não saber o que falar em um programa de rádio, ao vivo, para defender a classe, explicar o que fazem, quem atua etc.
Marilene Felinto, jornalista e escritora, certa vez escreveu o seguinte: “É para o crime e para o telemarketing que mais se perdem jovens (…)”. Parece forte demais e pode nos causar uma estranheza muito grande essa afirmação, não é!? Mas a considero a mais próxima de nossa realidade.
No texto, que continua, Marilene traça alguns paralelos que nos fazem pensar que a “salvação” de um emprego e a esperança de uma vida melhor para os menos favorecidos, digo os cidadãos à margem da sociedade, pobres, é encontrada na escravidão dessas centrais de atendimento.

“Perder-se”, ela explica, “significa sair do rumo mesmo, abandonar os projetos em que estavam envolvidos e dos quais tinham algum apoio para continuar os estudos e cavar um lugar menos pior do que o subemprego.”
Os jovens que caem na criminalidade (roubo, homicídio, uso e trafico de drogas etc), podem ser enquadrados num fenômeno “normal”, infelizmente, no contexto de pobreza urbana visualizado por Felinto e que concordo totalmente. Mas ver esses mesmos jovens presos em correntes (head), colocados em celas (PA’s), com banho de sol (folga) uma vez por semana – às vezes, pois há relatos de escalas que os forçam a ficarem mais 12 dias sem saberem o que é descanso -, ver pessoas treinadas para serem robôs e recebendo uma “fabulosa” indenização (salário), no fim de um longo mês de R$400,00 é tão forte quanto qualquer outra afirmação absurda.

Mas não é só com pessimismo que a escritora vê a famigerada profissão, ela também aposta que há uma absorção de pessoas que possivelmente teriam imensas, outras, dificuldades na vida.
“O telemarketing vem mesmo operando um verdadeiro “milagre” de recrutamento de jovens entre as classes baixas. E, como é tudo impessoal ao telefone do jovem-máquina amestrado no arremedo, como ninguém, vê ninguém, o telemarketing conseguiu inclusive a façanha de solucionar o problema da “boa aparência” e do preconceito que operam contra jovens pobres que procuram emprego. O telemarketing aceita com facilidade negros (Cacilda), gays (Teodoro), gordos etc. pelo simples fato de poder ocultá-los da sociedade!(…)”
Penso, eu, que somos culpados por isso também. Assim como reclamamos dos motoqueiros nas ruas, das congestionadas capitais brasileiras, por nos fecharem, levarem nossos retrovisores ou por simplesmente nos ultrapassarem não poderíamos reclamar quando eles atrasam a entrega daquele documento ou simplesmente quando eles demoram um pouco mais para entregarem as pizzas, haveria, aí, dois pesos e duas medidas. No telemarketing é a mesma coisa, pessoas mal remuneradas, não respeitadas e que precisam ter apenas o ensino médio para nos atenderem…
Às vezes penso que as empresas os colocam para nós como, e apenas, “detentos trabalhando para diminuirem suas penas”.


